Resposta curta

Construa um sistema de magia definindo o que ele pode fazer, o que não pode, quanto custa cada uso e quem tem acesso a ele. Siga essas regras até o trabalho cotidiano, a lei e a desigualdade. Depois, teste-as numa cena em que usar magia crie uma escolha difícil, em vez de eliminá-la.

Uma pessoa pode levar chuva a um campo, mas só se a tirar de outro lugar. Antes mesmo de dar nome ao feitiço, você já tem uma disputa, uma profissão e um motivo para uma aldeia temer os vizinhos.

Esse é um ponto de partida útil para um sistema de magia: uma possibilidade com consequências. Você não precisa de um catálogo de poderes antes de escrever. Precisa entender o que a sua magia exige das pessoas que a usam.

Comece pela pressão central da história#

Pergunte que problema a magia deve complicar. Uma história sobre herança pode dar magia a qualquer pessoa disposta a abrir mão de uma lembrança. Uma história sobre escassez pode fazer a cura consumir um recurso que não pode ser reposto. A ligação não precisa ser uma metáfora anunciada na página. É uma forma de fazer o mundo e o personagem puxarem a mesma corda.

Escreva uma premissa de uma frase: Alguém pode fazer X, desde que Y, mas fazer isso causa Z. Trate-a como uma hipótese de trabalho, não como uma lei que você nunca poderá revisar.

Para os nossos fazedores de chuva: um ouvinte treinado pode deslocar uma tempestade, desde que consiga ouvir o trovão dela, mas o vale que ela deixa para trás não recebe chuva. Isso nos diz o alcance do poder, uma condição de acesso e um custo externo.

Separe limites, custos e riscos#

Essas três ideias fazem trabalhos diferentes. Misturá-las pode fazer um poder parecer convenientemente fraco sempre que a trama precisa de problemas.

RestriçãoA pergunta que respondeExemplo dos fazedores de chuva
LimiteO que é impossível?Criar água do nada
CustoO que se paga a cada vez?Outro vale perde a sua chuva
RiscoO que pode dar errado?A tempestade chega como granizo destruidor

Um custo confiável muda as decisões mesmo quando tudo dá certo. Um risco cria incerteza. Um limite mantém alguns problemas fora do alcance da magia. Escolha pelo menos um de cada e veja se os seus personagens conseguiriam contorná-los com simples cooperação.

Decida quem pode usá-la#

O acesso cria política. Se a magia é herdada, as famílias podem vigiar os casamentos. Se é aprendida, os professores controlam um gargalo. Se qualquer pessoa pode usá-la com o instrumento certo, oficinas e cadeias de abastecimento importam tanto quanto o talento individual.

Não pare em “só uns poucos têm o dom”. Pergunte como um dom é reconhecido, quem pode pagar pelo teste e o que acontece com alguém cuja habilidade aparece tarde. Um exame supostamente neutro ainda pode excluir quem não tem como viajar até a capital.

No mundo dos fazedores de chuva, ouvir não basta: um ouvinte precisa aprender as diferenças entre os padrões das tempestades. Os aprendizados são longos porque os erros ferem pessoas que estão longe. Agora o cenário tem um motivo para formação, certificação e prática não autorizada.

Siga as consequências até a vida cotidiana#

Um poder passa a fazer parte de um mundo quando as pessoas fazem planos levando-o em conta. Parta de uma casa comum, em vez de projetar logo um império.

  1. Trabalho: que tarefa fica mais fácil, e que profissão perde o seu sustento?
  2. Casa: que precaução uma família toma sem nem pensar?
  3. Lei: quem paga quando a magia prejudica alguém de fora do acordo?
  4. Crença: o que as pessoas acreditam sobre o poder que os praticantes não conseguem provar?
  5. Desigualdade: quem recebe o benefício, e quem absorve o custo?

Os contratos de chuva poderiam exigir testemunhas dos dois vales. Propriedades ricas poderiam comprar tempestades durante as secas. Um agricultor poderia pendurar sinos ao ar livre para reconhecer a tempestade de um ouvinte que se aproxima. Esses detalhes nascem da mesma premissa, então parecem ligados, e não ornamentais.

Passe um pedido por todo o sistema#

Antes de escrever uma cena completa, pegue um pedido e passe-o por todas as decisões que você tomou até agora, sem acrescentar nada novo.

No terceiro mês de seca, o conselho de grãos do vale de baixo pede chuva. A única tempestade ao alcance do ouvido está se formando sobre as colinas do vale de cima, e a ouvinte que a escuta é Maren, uma aprendiz no último ano.

  1. Premissa: Maren pode deslocar a tempestade, porque consegue ouvir o trovão dela.
  2. Acesso: ela ainda não é certificada, e a mestra dela está doente demais para viajar. Agir sozinha seria prática não autorizada.
  3. Limite: ela não pode fazer mais chuva, então a verdadeira pergunta é de quem é a chuva que o vale de baixo vai receber.
  4. Custo: o vale de cima perde a água com que contava. O contrato precisa de testemunhas dos dois vales, e o vale de cima se recusa a mandar uma.
  5. Risco: a tempestade vem se formando há dias. Um deslocamento curto é seguro, mas não chega às lavouras de baixo. Um deslocamento longo chega a elas e pode cair como granizo sobre a colheita que deveria salvar.

Nada disso exigiu uma regra nova, e mesmo assim Maren agora tem uma escolha de verdade. Ela pode recusar. Pode levar a tempestade até a metade do caminho, onde ela enche o reservatório comum, mas não rega os grãos de ninguém. Ou pode levá-la até o fim sem contrato. Cada opção custa alguma coisa, e cada uma diz ao leitor quem ela é.

O exercício também expõe lacunas. Talvez você tenha acabado de decidir que tempestades mais antigas são mais difíceis de conduzir, ou que um contrato sem uma das testemunhas é nulo. Registre isso como fatos novos e confira-os com as cenas anteriores. Se você inventar uma regra só para que a cena termine bem, trate isso como um sinal de alerta.

Escolha o quanto o leitor entende#

As notas do autor e o conhecimento do leitor não precisam coincidir. Você pode conhecer um mecanismo preciso enquanto um personagem o entende por meio de rituais. Também pode deixar o mecanismo sem solução e estabelecer apenas o que as pessoas observaram.

Se a magia vai resolver um conflito importante, dê ao leitor provas suficientes de antemão para que ele reconheça a solução como possível. Se o papel da magia é inspirar pavor ou encanto, perguntas sem resposta podem servir à história. Em qualquer caso, evite introduzir uma habilidade nova exatamente no momento em que ela apaga a decisão mais difícil.

Mantenha a incerteza específica#

“Não sabemos se as tempestades se lembram do vale de origem” é um mistério produtivo. “A magia pode fazer qualquer coisa” dá a você menos com que trabalhar. O primeiro convida à divergência, à experimentação e ao folclore; o segundo pode dissolver o que está em jogo.

Ajuste o sistema à extensão da história#

Um conto e uma longa série precisam de quantidades diferentes de sistema. Decida apenas o que a extensão comporta.

ExtensãoDecida antes de escreverPode ficar em abertoCuidado com
ContoA frase da premissa e a única restrição em torno da qual a trama giraRegras de acesso, instituições, históriaGastar as palavras com explicações em vez de uma escolha difícil
RomanceLimite, custo, risco e quem tem acessoO mecanismo de fundo, regiões distantes, casos rarosUma habilidade nova que aparece pela primeira vez no clímax
SérieTudo o que está acima, mais o que pode mudar entre os livrosPor que as regras existem, se esse mistério faz parte do atrativoCada livro elevar o teto até que os custos originais deixem de importar

Um conto sobre fazedores de chuva poderia ser a cena da recusa e pouco mais. Um romance precisa dos aprendizados e dos contratos, porque os seus personagens vão viver dentro deles por centenas de páginas.

Numa série, decida cedo o que pode crescer. Habilidade, conhecimento e instituições podem se expandir de um livro para outro; o limite central deve se manter. Se um livro posterior encontrar um jeito de contornar o custo, torne essa descoberta cara também. Aprender a dividir uma tempestade permite que um único ouvinte regue dois vales, e dá motivo de queixa ao dobro de vales.

Erros comuns e como corrigi-los#

Cada um destes erros faz a magia parecer conveniente em vez de consequente, e cada um pode ser corrigido na revisão.

O custo desaparece quando a trama acelera#

Os primeiros capítulos mostram cada preço, e na batalha final os feitiços saem de graça. Para cada cena que usa magia, anote quem pagou e se alguém na página sabe disso. Se Maren desloca uma tempestade no último ato, algum vale ficou seco. Deixe alguém mencionar isso depois, nem que seja numa única linha.

O mundo ignora o que a magia facilita#

Se as tempestades podem ser deslocadas, por que algum vale ainda passa fome numa seca? Liste os três usos em que uma pessoa comum pensaria primeiro e decida se cada um é comum, regulado ou impossível. Cada resposta dá a você uma instituição ou um limite.

Um limite aparece só quando a trama precisa dele#

Uma restrição revelada no clímax parece trapaça, mesmo que estivesse nas suas notas desde o começo. Mostre a regra antes, numa cena em que ela cause problemas em vez de resolvê-los. Se o granizo vai importar na tempestade final, deixe um deslocamento anterior dar errado em escala menor.

Teste o sistema numa cena pequena#

Escreva uma cena em que um praticante precisa recusar um pedido razoável. Uma aldeia pede chuva, mas deslocar a tempestade mais próxima destruiria a colheita de um vizinho. Deixe a recusa gerar uma discussão entre pessoas que têm, todas, bons motivos.

Depois, escreva uma segunda versão do ponto de vista de quem arca com o custo. Se essa perspectiva muda a forma como o poder é sentido, a sua magia começou a fazer mais do que decorar o cenário.

Quando as duas versões existirem, leia-as à luz de algumas perguntas:

  • A magia tornou a decisão mais difícil ou só fez o problema desaparecer?
  • Quem pagou, e alguém na cena sabe disso?
  • Algum personagem fez algo que uma regra deveria ter impedido? Se sim, mude a cena ou a regra e anote qual das duas.

Mantenha uma referência compacta com a premissa, as restrições, as regras de acesso e as perguntas em aberto. Só a amplie quando uma cena precisar de uma resposta. Para as instituições que crescem em torno da magia, continue com como criar uma cultura fictícia.

Guarde as regras no Yazar.io#

O Yazar.io combina bem com esta etapa, porque as suas seções já correspondem às partes de um sistema de magia: Feitiços para cada efeito mágico, Universo para as regras por trás deles e Personagens para as pessoas que podem usá-los. Configure uma vez o modelo de feitiço com campos para limite, custo e risco, para que cada feitiço novo faça as mesmas três perguntas (modelos de campos).

Quando você digita o nome de Maren na entrada de um feitiço, o Yazar.io liga os dois automaticamente, e o painel de backlinks da página dela lista todas as entradas que a mencionam (recursos). Quando uma cena muda um custo, esse painel mostra quais personagens, e portanto quais cenas, você precisa reler. O seu manuscrito fica no Word ou no Google Docs; o Yazar.io mantém a referência ao lado dele.

Fontes